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No final do primeiro mês do já desastroso governo Bolsonaro, mais um flagrante do vazio democrático que vivemos em 2019: Jean Wyllys, em entrevista à Folha, conta que abandonará o cargo no congresso e o país em virtude das ameaças de morte que vem sofrendo.

​ A situação ficou insustentável depois de sucessivas notícias falsas associadas ao deputado: frases normalizando a pedofilia, a propaganda escolar da homossexualidade e outros absurdos. Então, o tom agressivo se tornou coisa pública: as pessoas acreditaram nas invenções sobre Jean. Mesmo os cinco casos de injúria e difamação que ganhou não corrigiram da sua imagem a mancha do ataque sistemático. O ódio direcionado a ele é incendiado por profissionais, que criam e compartilham mentiras numa fábrica virtual, centralizada em grupos temáticos do Brasil iliberal, e, claro, replicadas no grupo da família.

​ Mas a hostilidade que era virtual é crescentemente concreta. Jean é empurrado e xingado, em público, por agressores justificados por mentiras bizarras. É ameaçado contundente e graficamente. A gravidade dessas escalou depois do assassinato de Marielle Franco em março de 2018, que revelou verdadeiros e bem orquestrados os planos de calar quem trabalha para democratizar o Rio, fora do grotesco casamento entre o crime organizado e a corrupção institucional. O medo de Jean é legítimo especialmente quando os milicianos da zona oeste carioca, suspeitos da execução de Marielle, parecem num movimento nacional, e talvez tenham acesso á presidência. No vácuo, o cheiro do esgoto volta.

​ Jean vai para o exílio, perseguido politico. Mas o trabalho continua com David Miranda, negro gay e favelado no congresso nacional. Eu continuo, do Butantã e via internet. O movimento LGBT, o feminismo, a luta antiracista e a oposição de esquerda também são materiais. Eu mesmo não vou a lugar nenhum. E pergunto: Quem matou Marielle e Anderson? Quem ameaça Jean e Freixo? De onde vem os planos de difamação, coerção e execução dos nossos representantes?

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