Lições da inevitável ruína

O minério de ferro retirado das minas é chamado de ganga, uma mistura em camadas alternadas, do mineral explorado comercialmente com outros indesejados. Essa rocha bruta, então, é triturada até um ponto perto de pó e levada ao beneficiamento, processo que concentra o metal para venda.

​ A pedra moída é separada num tipo de espumação que aglomera materais segundo suas propriedades de absorção. O ferro, por exemplo, flutua – o que nomeia o processo, flotação – e é retirado por cima de um tanque. No fundo fica acumulada a ganga, pó de pedra lavada em química pesada, sem valor de mercado depois da separação.

​ Esse é o rejeito de mineração, o resto do beneficiamento. Seu volume e aspecto varia de acordo com a qualidade do minério e o tipo de refino. Nas últimas décadas, ampliação do volume de processamento vêm se barateando, e os depósitos minerais são cada vez menos concentrados. A curto prazo, essa conjuntura faz economicamente viável o descarte de montanhas inteiras, e não o investimento em pesquisa em tecnologia segura.

Nas barragens à montante, como a que ruiu em Brumadinho, os rejeitos são acumulados para secagem e depositados em camadas horizontais. A partir de uma contenção inicial de solo compactado, são empilhadas camadas sucessivas de rejeito. As barreiras de contenção vão entrando na barragem, sustentando-se em parte e crescentemente sobre o próprio pó contido. No funcionamento ideal dessas, a terra seca é compactada até a solidez.

Corte da barragem de rejeitos que rompeu em Brumadinho, Pirete and Gomes (2013

​ A escala desses objetos, no tempo e no espaço, alcança distâncias sobrehumanas. Os minerais que foram depositados há milhões de anos; extraídos e redistribuídos na superfície terrestre pela atividade industrial; e perdurarão a organizar grandes intervenções na superfície terrestre. Em volume, as barragens de contenção do rejeito viscoso, tóxico, e malcheiroso são provavelmente as maiores estruturas engenhadas pela humanidade.

​ O mais relevante perigo para a estabilidade desse tipo de barragem é a umidade. Se o rejeito compactado é infiltrado por água, pode liquefazer – virar lama e colapsar. A Vale repete que a Barragem 1 estava inativa, por não estar recebendo novo material. A atividade de sustentar o peso de 12,7 milhões de metros cúbicos instáveis e suscetíveis a variações externas, porém, se mantinha. Para tal, precisava de atenção, no mínimo o controle dos níveis de água e da atividade sísmica próxima.

​ A instabilidade não passa despercebida nem a olhos nus. A estrutura mostra rachaduras, vazamentos, acúmulo de água no topo, um tipo bizarro de grama e até espuma. A última auditoria da barragem 1 de Brumadinho mostrou danos semelhantes e a Vale, claramente, não fez a manutenção devida. Nem ao menos retirou seus funcionários do caminho fatal da lama. No lugar de atitudes concretas de proteção da vida, as mineradoras investem na manipulação das ferramentas de vigilância.

O fantasma do rio Doce

A Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton, responsável pela barragem do Fundão em Mariana, foi multada várias vezes num total de 741 milhões pelo rompimento em novembro de 2016. Até o próximo desastre - de responsabilidade da Vale, no começo de 2019, só pagou 41. Elio Gaspari notou que se as empresas tivessem a qualidade de seus advogados, nenhuma barragem teria rompido.

​ No gigantismo internacional dessas controladoras, casos como os mineiros são externalidades, um custo marginal. Os conselhos, executivos e diretoria dessas mineradoras têm como objetivo a elevação dos lucros, a geração dividendos para acionistas e o máximo de bônus para si. Nessa lógica, óptimo é vender a maior quantidade de ferro neste quadrimestre, sempre reduzindo custos de produção. O reinvestimento é todo na imagem e no lobby.

​ A amplamente debatida privatização em 1995 e abertura de capital, nas últimas décadas, transformou a Vale (Do Rio Doce só até 2007) numa verdadeira multinacional. O Brasil ainda está umbilicalmente ligado, entretanto. Os fundos de pensão estatais Funcef, Petros e Previ e o BNDES têm 27% das ações da empresa, a maior parte dos papéis. Dolorosa associação hoje, dado a devastação parasita da empresa no território brasileiro.

​ A influência parece ter invertido em direção. Os tentáculos da empresa estão enraizados nas instituições políticas e na economia de enormes regiões - e de UFs inteiras. A Vale espiona ativistas ambientais, doa para todas as grandes candidaturas, e até assina o Código de Mineração. O vocal Procurador do Meio Ambiente de Minas, Carlos Eduardo Ferreira Pinto, foi obviamente afastado da investigação de Mariana e transferido para o interior do estado, quando atentou para o complexo e contínuo estrago da Samarco na bacia do rio Doce.

​ Depois da privatização, o país assistiu a Vale crescer vertiginosamente, escalar a produção ao máximo, distribuir generosos dividendos e belas doações a políticos. Agora, depois de 3 bilhões da venda e tanto mais arrecadado, o país continua precisando cortas despesas. A dívida maior é a catástrofe material, que só fica mais aparente: Minas Gerais virou um campo minado, centenas morreram, estão em risco ou sofrerão impactos negativos durante a vida; um rio foi soterrado por lama tóxica; modos de vida e biomas inteiros foram e serão extintos.

​ Muitos desses impactos são o normal da mineração. Catástrofes como a onda de lama são focos escandalosos de um processo danoso pelo princípio. O extrativismo industrial por si extingue e contamina. A grande infraestrutura de extração, que promete desenvolver e trazer riqueza para comunidades em troca de recursos naturais, têm duras adversidades, encobertas pelo lobby dos empreendedores.

​ O ônus da mineração fica com a população local ao longo dos anos, principalmente depois do inevitável esgotamento da mina, quando vão os empregos e fica o buraco - e a barragem. O valor é extraído da terra, claro, local, para os fundos acionistas e compradores ao redor do mundo. De todo o volume de minério de ferro brasileiro, 90% é exportado. É uma das commodities, fundamentais na economia do país, explorada gratuitamente em concessões da União para mineradoras, pagando somente 2% do valor em impostos na saída.

​ Quando chegam a beneficiar é por pouco, a poucos. Os empregos locais são majoritariamente masculinos, não qualificados, mal pagos, e requerem longos deslocamentos. Por tal combinação, o grande extrativismo é historicamente associado à prostituição. Essa é uma consequência corrente do maior projeto de mineração do mundo, da mesma Vale, em Carajás, no sudeste do Pará. Não um foco dramático, mas a silenciada e constante degradação das relações sociais e do ecossistema.

​Sandro Botticelli: Chart of Hell. 1480-95 at the Royal Academy of Arts.

​ A métrica da mineração moderna é crescente, impulsionada pela baixa no preço do minério paralela à queda nos custos de produção. Mesmo o minério de má qualidade ainda disponível é explorado em plantas cada vez maiores e mais eficientes, em função dos avanços tecnológicos. O impacto na vida terrestre é na mesma ordem.​ Se a rocha brasileira sustenta cidades nunca habitadas na China; no Brasil, a lama tóxica da mesma rocha acaba com a maior bacia hidrográfica no Sudeste do país. A devastadora ação humana na Terra vai deixando fantasmas do mundo que houve.

Tempos viscosos

Tais objetos são gigantescos artefatos que a humanidade introduziu ao sistema terrestre. Nossa espécie liderou uma grande modificação material no planeta. A inflada escala de ação levou geólogos a nomearem o período da Terra em que os humanos - antropos - têm agência sobre a Terra.

​ Dentro deste período foram construídas, inundadas, rompidas, levadas e soterradas as barragens de rejeito de minério. Uma paisagem representativa dos processos marcantes desse tempo poderia até ser antropocênica. Os acúmulos dos rejeitos serão marcantes descobrimentos arqueológicos no futuro. Pelo volume e difusão, talvez seja uma característica marcante desta época, como fósseis de trilobitas são do Paleozoico.

​ Parte dos cientistas resiste à proposta porque consideram que mudanças de época se dão em eventos mais catastróficos, e não numa transição humanamente engenhada. Também se fala que a degradação do ecossistema não é de responsabilidade de toda a humanidade, mas de um grupo ligado ao capitalismo – predominantemente branco, ocidental e masculino. Outros pensadores argumentam que a ideia de ação humana sobre o sistema natural reforça uma separação que não existe, noção que provavelmente nos trouxe à catástrofe ecológica.


Assim como transformou o mundo material, o Antropoceno muda a percepção do tempo. Bruno Latour, um dos proponentes, diz que ele passa a fluir do futuro para o presente, apocalíptico no sentido da revelação das coisas que estão vindo em nossa direção. A abordagem dele serve para pensarmos a vida humana como se o presente já fosse geológico.

​ Quando formos visitados por uma paleontóloga do futuro, ela descobrirá os restos do extrativismo industrial: rochas de plástico - material inédito até nosso tempo, montanhas e buracos radioativos. As camadas de carbono e partículas radioativas se sobrepuseram e formaram as camadas de rochas que representarão a atividade humana (a queima de combustíveis fósseis e atividade nuclear, respectivamente) assim como enxergamos sinais geológicos dos dinossauros. É nesse trabalho de imaginação (do que restará) que especulamos sobre novas formas de vida no cenário que invariavelmente construímos – a partir do Antropoceno, conscientemente.

​ O que ficará claro para esses exploradores do futuro será a intensificação do dano ambiental pelo capitalismo industrial num período, a partir da segunda metade do século XX, chamado de Grande Aceleração. Ligando alguns pontos, interpretando a localização dos depósitos de refinos e rejeitos, poderão entender as relações globais de exploração, o centro e a periferia. Estudarão o sistema operador do evento que varreu o córrego do Feijão, de grandeza e complexidade muito maior que o quilométrico complexo de minas.


O paisagismo antropocênico não era regido pela humanidade simplesmente, mas por uma organização específica dentro dessa. As decisões que aceleraram o ritmo de destruição não foram naturais, mas tomadas por uma minoria capitalista. A própria organização do material humano revelará que a catástrofe é desigual, de acordo, por exemplo, com classe, raça, gênero e posição. Muitas populações humanas e não humanas já viveram a devastação ecológica do Antropoceno bem antes do mundo ocidental e a ciência moderna.

​ A tribo indígena Krenak vivia desde sempre na beira do rio Doce, como narra Consuelo Dieguez. Com o avanço do garimpo na região, foram dizimados, expulsos, e suas terras ocupadas por fazendeiros. Os sobreviventes foram arrastados para longe e só voltaram com a lei de demarcação de terras. O soterramento do rio, a morte de uma mãe para a comunidade, foi a segunda escalada de uma desgraça que se mantém desde que essa terra é Brasil.

​ O futuro – cataclísmico como o vemos agora – chegou para as populações nativas com a colonização. É o tempo da separação do homem e natureza, da ambição de movimentar-se para a modernidade, tomando o outro como objeto de exploração. É essa a direção do tempo imposta pelo colonizador, que alcançou o globo e acabou devastando o habitat humano.

​ O capitalismo manipulou o meio natural supondo que a ação humana se dava no vácuo. Porém, a humanidade não era técnica num sistema, mas parte de um meio. A ação humana tentando construir um mundo melhor errou em ter usado o outros habitantes da Terra para tal, e não se juntado a eles. Acabou construindo um mundo insustentável: em que o progresso e qualidade de vida de um é contingente à opressão do outro.


Esses lugares assombrados perturbam as narrativas de Progresso, e inflamam a imaginar mundos possíveis. A radicalidade é que eles já estão por aqui.

​ Mesmo que não se debata com entidades não-humanas, a nova época esclarece que precisamos considerar seu bem estar na direção da sociedade. Isso significa mudar a relação com os outros integrantes do ecossistema – seja animal, vegetal ou mineral – de uma de exploração por uma de solidariedade.

​ O capitalismo industrial ameaça os meios de vida que queremos tanto, e até nossa própria existência. Qualquer futuro que se baseie em exploração semelhante já é apocalíptico. O Antropoceno ensina que não é possível sobreviver usando o que habita a Terra, somente vivendo com tais entidades.

Contaminated_Rio_Doce_Water_Flows_into_the_Atlantic_-_NASA

Eric Macedo na Piseagrama: A Maldição dos Recursos

São como duas faces: uma que corresponde às dinâmicas de acumulação do capital surgidas no centro, com o modo de produção capitalista (no que diz respeito seja ao trabalho assalariado, seja à especulação financeira), e outra que, correspondendo à periferia, diz respeito a outro modo da acumulação, que passa pela exploração de um trabalho não pago da natureza e de certas populações humanas.

[…]

Não é que o capitalismo “lance suas maldições” apenas sobre as suas regiões periféricas: de certa forma, como já dizia Bataille, a perda, o consumo inútil são necessários em toda parte. O que se passa na periferia é uma espécie de afloramento da parte maldita, que a torna particularmente visível. Como o grosso da acumulação se dá alhures, a periferia tende a ficar apenas com o fluxo maldito residual que é rapidamente exaurido. A presença mais forte do “sentimento de maldição” nesses locais revela, assim, algo sobre a desigualdade necessária à mecânica de acumulação própria do sistema. Em certo sentido, a “maldição” mais aflorada nessas áreas corresponde a uma manutenção dessa desigualdade constituinte. Na periferia, ou os fluxos escorrem em direção a um centro ou são completamente dissipados: a acumulação, nestas áreas, é mantida numa escala mínima, o que tende à manutenção da condição periférica.

[…]

O que é exportado é essencialmente o trabalho não pago de recortes da biosfera. Os fluxos de minério, por um lado, e energia, por outro, são combinados na produção de certas formas de matéria-prima exportável. A abundância de energia barata é essencial para o funcionamento da cadeia:em última instância, o fluxo dos rios da Amazônia é convertido em fluxo de energia e, posteriormente, em fluxo de matéria-prima. Nos locais de extração, a quantidade de pessoas empregadas é ínfima, tanto na geração de energia (pós-construção) quanto no beneficiamento do minério. Se o valor é dado pela força de trabalho, ele não é fundamentalmente gerado aí. A conversão desse novo fluxo (alumínio em suas diversas etapas de transformação) em capital se dará em outras regiões (no caso da Alcoa, por exemplo, em sua sede norte-americana). O valor, portanto, é produzido no centro. A região periférica fica com um punhado de salários e todos os impactos da produção. Dissipação de naturezas: entre elas, um rio barrado.

Consuelo Dieguez na Revista Piauí: A onda de Mariana

Ao ver a lama cada vez mais perto, uma jovem, esgotada, se ajoelhou no asfalto. Mais tarde ela contaria ter pensado que, se a morte era inevitável, o esforço de correr não fazia mais sentido. Viu passar um grupo de pessoas mais velhas em direção ao alto. Foi o que a fez reagir. Se havia alguma chance, ela também se agarraria a ela.

[…]

A onda desceu pelo rio caudaloso, tingindo-o imediatamente de vermelho, e logo os peixes começaram a subir até a lâmina d’água em busca de oxigênio. Em pouco tempo estavam todos mortos, boiando, envoltos em terra. A turbidez do rio, que antes da chegada do rejeito era de 2,62 NTUs, ultrapassou 120 mil. Toda a vida do rio Doce em Valadares foi dizimada por sufocamento. Não demorou muito e o odor de peixe podre infestava tudo.

Joel Call em Bright Wall/Dark Room: The Evil of Meaning: Fragments on The Leftovers

The “Sudden Departure” is the name given the apocalyptic, rapture-like event in which 140 million people vanished without a trace. The rest of the world is left amidst this shattering loss. Most of the characters in The Leftovers witnessed someone (or many) disappearing right before their eyes, and in this way—although they don’t know if the dearly departed are dead or perhaps enjoying some other, heavenly existence—the Departure enacts a sort of global, near-death experience. The characters in The Leftovers don’t seem to belong to themselves any more, living lives they no longer possess. The Departure is omnipresent, felt everywhere, and yet there’s a sense in which the characters are counting down the days until (and praying for) yet another apocalypse—one that would finally put their grief, pain, and questions to rest.